quarta-feira, 17 de julho de 2024

PRECE DE MISERICÓRIDIA - ainda não fui ouvida.

 Pai que estás no céus 

santifico Seu nome ao abrir e fechar dos olhos

mas porque não santificas o meu?

me fizestes pela costela de Adão para ansiar tanto pela morte 

Pai, por que diz que teu fardo é leve se dói tanto que me faz envergar a coluna?

eu te suplico, Grande Poderoso

me faça descansar no seu colo

acalentas meu pranto

disfarças minhas cicatrizes

Ó Pai, tens esquecido que sou pecadora?

aquieta a minha alma que tanto chora

perante à Ti te imploro;

enquanto meu sangue pulsar em minhas veias, ou enquanto houver fôlego em meus pulmões, rogai por mim.

A CORAGEM SE FAZ VIVA PORQUE O MEDO É GRANDE - O CRESCIMENTO E A MATURIDADE INSISTE

 eu sempre tento me entender como criança, tenho voltado no tempo e questionado se eu do passado estaria contente comigo do presente. e sempre me balanceio com a resposta e as curvas que um único pensamento me leva. é sempre não, não, não e não. e então qual meu destino? qual meu propósito? 'não sei', diz ela. o que eu posso fazer agora? a vida adulta não me permite mais me trancar num quarto escuro, sendo que eu sempre fui mestre nisso. essa quebra, esse ciclo sendo fechado e trancado a sete chaves me faz perceber o quanto eu cresci. querido leitor, quantas vezes você quis jogar tudo pro alto? mas esse pensamento só durava 2 segundos pois era o tempo certo de cair na real e perceber o tanto de coisa que tem que pagar? essa vida não me deixa parar, não existe pausa pra tomar um copo d'água e engolir um s.o.s. e a vida é isso. e eu me frustrei, sabe? não pude evitar a tristeza. e eu não corro mais dela. mas decorei o caminho que a vida faz, vou pela sombra junto com ela e quando percebo estou no automático. eu sinto saudade do tempo que se foi. mas saudade não basta, e nunca bastou. isso aqui é uma lástima, é alguém entendendo que as coisas não voltam mais e criando a coragem para viver. eu sei que sou corajosa. eu sei que estou melhorando. às vezes só não parece tanto, sabe?

eu estou achando que o "às vezes" não existe.

a coragem se faz viva porque o medo é grande.

SEM PRESSA³

 em todo vendaval de palavras que saem de mim

sussurros inigualáveis diante da madrugada escura 

a cabeça pesada e quente esperando o dia amanhecer

os dedos se mexendo por agonia 

da ansiedade da vida

da ânsia de ontem e do medo de hoje

o desejo de amanhã conturbado com o segredo

será que sou capaz de viver mais um dia?

lidando com o destino das coisas e me perdendo na resposta de cada uma delas

a ausência de fôlego de cada fim de pensamento 

o conselho mal dado das minhas lágrimas 

as escolhas que me corroem e me tornam em lástima 

a pobreza do meu peito em amar mais de um milhão de juramentos 

e eu

e o amor que não uno por mim

o trago fica só pra fumaça 

e me abstenho em paz

as vozes abaixam 

e me acalento no pranto

sem pressa

sem pressa

sem pressa.

VIVER (NÃO) É MELHOR DO QUE SONHAR

 tenho pensado muito na canetada de Elis ao dizer que viver é melhor do que sonhar

eu queria poder concordar tanto quanto ela afirmou em 1976

eu tento em miúdas partes te dizer, caro ouvinte, que tenho tentado viver

mas ao auge dos 19 anos descobri que a vida é tão complexa

respiro fundo e mergulho no meu Eu de alguns anos atrás e me assusto

me assusto por tudo ter mudado tanto 

e eu nem tinha preparado a sala de estar pra isso

peguei no sono e já não era mais o que era antes

fico confusa, alucinada e tonta

paro pra escutar uma voz doce e trêmula

é a minha mãe me pedindo pra voltar pra casa

mas pra onde eu vou? o que significa casa pra ela?

me pego confusa de novo e fico tonta de novo

mãe, eu não pedi pra estar aqui

eu não sei se quero estar aqui de novo

espero que não haja outra vida

e se tiver,

que eu me contente em sonhar do que viver

terça-feira, 16 de julho de 2024

HOJE SEMPRE OU NUNCA

 de repente eu voltei aos meus cigarros

comecei a futucar um punhado de livros

eu remexi uma porção de velhos jornais

e de velhas lembranças

e não demorou muito

eu já estava com todos os sintomas de uma ameaçadora fossa agressiva

das mais terríveis 

dessas assim que obrigam a gente a jogar tudo pra cima

dar com a cabeça na parede

comer pedaços de estante e engolir todas as coisas que foi encontrando pela frente

sem se quer ter o cuidado de mastigar

eu sinto que é preciso fazer alguma coisa

cantar, uivar, telefonar, providenciar, enfim

que desgraça pouca é bobagem

não fazer nada é o mesmo que contribuir para a impressão idiota de que essa vida é sem expressão

mas eu não vou ficar aqui

entregue às baratas 

enquanto eu sei que a noite é grande

e que a baderna é igualmente grande lá fora

eu resolvi pois

conversar com você.


POEMA SEM TÍTULO, por Camélia Maria de Souza (1936-1974), recitado por Aprígio Lyrio no programa "Gente Nossa - Carmélia por amor", apresentado por Milson Henriques e dirigido por Afonso Abreu na Rádio Espírito Santo AM 1160, em 25/07/1975.

recitado também na canção "Espelunca".