domingo, 21 de julho de 2024

NÃO ME PERGUNTE PORQUE EU NÃO SEI

 QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

deve ter cheiro de quarto de bebê

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

um casal que esteve comigo num teatro se amando

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

o canto gostoso de ouvir alguém cantando num restaurante qualquer comendo alguma coisa qualquer

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

rio de janeiro, copacabana

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

o abraço apertado com carinhos nas costas de saudade

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

o parabéns de feliz aniversário de alguém

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

malabarismo no sinal com um toque de injustiça

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

um mergulho numa praia gelada que me faz sair arrepiada

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

o arroz de forno do meu pai

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

fazer carinho num cachorro caramelo na rua

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

um bom dia pra qualquer pessoa que transformou meu dia em sorriso

QUAL O SABOR DA VIDA LÁ FORA?

eu não sei

me deixa provar?


A PRESSA NUNCA FOI TÃO INIMIGA DA PERFEIÇÃO

odeio essa fúria 

essa pressa de viver que me engole

me faz atropelar todos os momentos sãos e vivos

incendiados por todos os meus pensamentos intrusivos que me corroem 

eu tento voltar pra órbita mas é tão difícil quando você não sabe mais diferenciar o real do irreal

tenho medo de perguntar se tudo isso aconteceu e a resposta for sim

porque se for,

eu vou explodir tudo isso aqui

SUMIÇO ELEGANTE

não me deixe não

por mais que eu peça aos deuses um sumiço elegante

ou uma volta longe daqui

eu continuo querendo a oportunidade de respirar e estar na mesma atmosfera que você

e quando eu pedir pra ir embora

ameaçar as próprias vozes da minha cabeça de tudo o que há de mais ruim nessa terra

não é real

eu só tenho andado avulsa

andado sem esperança das coisas mudarem

e voltarem a ser como eram antes

mas aqui,

me entrelaça e me diga que vai ficar tudo bem

eu caio fácil em mentiras

a correria do acalmar-se

qual o som do silêncio? 
quanta calmaria cabe em 8 letras?
é fachada
o silêncio fala mais do que toda a baderna de sexta-feira à noite
mais do que as buzinas no trânsito de Vitória 
até mais que nós?
até mais que tudo 
até mais que todo vinho no corpo e o calor excessivo 
mas eu não vou ficar aqui entregue à bagunça e o desespero de tudo se aquietar
porque eu sei que amanhã o dia é novo
e o novo nunca pareceu tão conhecido 
eu digo basta
o silêncio já não me machuca
não sou escrava mais

naturalmente ninguém vindo (me deixe sozinha)

 é visceral o canto que sai das suas entranhas 

remexendo todo o entulho do meu lar

meu tapete desarrumado, a pia cheia de louças e o cinzeiro vazio

o cheiro de gás e o álbum de fotos desocupado pedindo para ser habitado por uma primeira vez

e eu digo que não tem momentos pra isso 

não existe registros 

a chuva invadindo a janela e o vento gelado se aconchegando

eu até que vi o que iria acontecer 

mas eu não tinha pra onde recorrer que não pudesse me causar tamanha agonia 

eu tive que deixar 

eu tive que convidar a entrar 

a cadeira logo se ocupou 

o meu cabelo arriou

e a luz apagou

eu já não tinha mais energia para conversar

e eu nem te conhecia

prefiro ficar sozinha