de repente eu voltei aos meus cigarros
comecei a futucar um punhado de livros
eu remexi uma porção de velhos jornais
e de velhas lembranças
e não demorou muito
eu já estava com todos os sintomas de uma ameaçadora fossa agressiva
das mais terríveis
dessas assim que obrigam a gente a jogar tudo pra cima
dar com a cabeça na parede
comer pedaços de estante e engolir todas as coisas que foi encontrando pela frente
sem se quer ter o cuidado de mastigar
eu sinto que é preciso fazer alguma coisa
cantar, uivar, telefonar, providenciar, enfim
que desgraça pouca é bobagem
não fazer nada é o mesmo que contribuir para a impressão idiota de que essa vida é sem expressão
mas eu não vou ficar aqui
entregue às baratas
enquanto eu sei que a noite é grande
e que a baderna é igualmente grande lá fora
eu resolvi pois
conversar com você.
POEMA SEM TÍTULO, por Camélia Maria de Souza (1936-1974), recitado por Aprígio Lyrio no programa "Gente Nossa - Carmélia por amor", apresentado por Milson Henriques e dirigido por Afonso Abreu na Rádio Espírito Santo AM 1160, em 25/07/1975.
recitado também na canção "Espelunca".
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