terça-feira, 16 de julho de 2024

HOJE SEMPRE OU NUNCA

 de repente eu voltei aos meus cigarros

comecei a futucar um punhado de livros

eu remexi uma porção de velhos jornais

e de velhas lembranças

e não demorou muito

eu já estava com todos os sintomas de uma ameaçadora fossa agressiva

das mais terríveis 

dessas assim que obrigam a gente a jogar tudo pra cima

dar com a cabeça na parede

comer pedaços de estante e engolir todas as coisas que foi encontrando pela frente

sem se quer ter o cuidado de mastigar

eu sinto que é preciso fazer alguma coisa

cantar, uivar, telefonar, providenciar, enfim

que desgraça pouca é bobagem

não fazer nada é o mesmo que contribuir para a impressão idiota de que essa vida é sem expressão

mas eu não vou ficar aqui

entregue às baratas 

enquanto eu sei que a noite é grande

e que a baderna é igualmente grande lá fora

eu resolvi pois

conversar com você.


POEMA SEM TÍTULO, por Camélia Maria de Souza (1936-1974), recitado por Aprígio Lyrio no programa "Gente Nossa - Carmélia por amor", apresentado por Milson Henriques e dirigido por Afonso Abreu na Rádio Espírito Santo AM 1160, em 25/07/1975.

recitado também na canção "Espelunca". 

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